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Um cara estranho que chegou a esse mundo esquisito e convive com pessoas também estranhas. Tenta no meio de tanta anormalidade e atrocidade, fazer do seu mundo e das pessoas que me cercam um lugar melhor. Crítico e contundente, nunca me acomodo, tampouco me acostumo com a mesmice dessa vida. Vivo a formular teorias e teoremas baseados na minha percepção, as vezes tosca e sem importância, mas outras um tanto sérias e plausíveis, com uma pitada de humor e ironia. Sem medo de dizer o que penso, choco e arrebanho inimigos, mas antes assim do que ser falso, principalmente comigo.
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"Escrevo desde criança e desde então sofro desta curiosa perturbação existencial que consiste, como dizia Kafka, em trocar a vida por palavras. Pode ser uma coisa congênita ou adquirida, não sei. Começou com a imaginação e se continuou com a leitura. À semelhança das traças, devoro livros desde menino. Desde menino, sou habitante de um mundo mágico. Escrevo. Manipulo este difícil instrumento que é a palavra"

Moacyr Scliar

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sábado, 28 de novembro de 2009

Vivências: Japão


Quando eu olho pra trás e repasso mentalmente meus últimos dois anos eu penso no quanto eu era feliz e não sabia. E se eu pudesse faria tudo de novo, talvez até cometeria os mesmos erros. Foi no Japão que eu vivi as coisas com mais intensidade e liberdade. Foi onde eu experimentei de tudo, vivi de tudo e aprendi de tudo.

Morar no Japão foi uma surpresa imensa primeiro porque é longe pra caramba e segundo porque é o inverso de tudo o que vivemos pelas bandas do ocidente. Se você quiser viajar para o Japão é bom estar preparado para todo o tipo de surpresa e preparar muito bem seu inglês, caso o seu nihongo não esteja em dia. O alfabeto japonês é de deixar qualquer um louco. Até hoje me considero um analfabeto. Sei ler pouquissimos kanjis e escrever então, nem se fala. Parece uma criança no Jardim de infância

Lembro como se fosse hoje, o dia em que cheguei no aeroporto de Narita e fiquei perdido no meio de tanta gente. Enquanto eu esperava minha sensei chegar quase entrei em desespero por perceber que meu inglês era muito mais inferior do que eu imaginava. Passado o momento de euforia por estar naquele lugar mágico, conhecer pessoas incríveis de cada lugar diferente do mundo, fui tentar realizar as tarefas mais básicas: comprar produto de higiene pessoal, telefonar para a minha família e andar pelas ruas. Não consegui fazer absolutamente nada. Comprei creme de barbear achando que era creme dental, a ligação não completava e eu simplesmente me perdi pelas ruas de Tokyo. Me senti uma criança que sai de casa sozinho pela primeira vez, mas tudo era festa. E era mesmo.

As baladas japonesas são ótimas, todo sábado as boites lotavam, a maioria de gaijin (estrangeiros). Era gostoso se misturar entre portugueses, irlandeses, franceses, ingleses, holandeses e notar que você faz parte daquilo. Uma das coisas que mais me emocionava era isso, ser parte de um todo, de um Japão muito diferente desse que as pessoas no Brasil imaginam.

Quando a gente pensa em Japão, logo imaginamos um país que respira tecnologia e um povo frio. Parte é verdade, o Japão é mesmo o berço de todo o avanço tecnológico e os japoneses não são frios e sim reservados, polidos e muito educados. É muito impressionante notar o respeito das crianças pelos professores, a forma de tratamento é bem diferente das que vemos por aqui

O Japão é mesmo uma diferente e comporta uma diversidade de mundos incrível. Andar em Tokyo é um misto de São Paulo com New York, mas bem mais limpo, organizado e silencioso. O silencio em pleno trânsito incomoda, parece que tudo acontece diante de um telão.


Tudo impressiona, o ônibus é uma coisa absurdamente organizada, os banheiros são um espetáculo, tocam música, tem climatizadores, aromatizados, a descarga é silenciosa.Os karaokês eram ótimos. Andar de shinkansen foi um sonho realizado. O onsen é muito engraçado, eu custei a perder a timidez e relaxar. Dormir em cama era coisa do passado e comer de hashi não foi problema algum pra mim, me adaptei muito rapidamente, dificil foi perder o hábito quando voltei para o Brasil.

Nem tudo por lá é festa. O custo de vida é muito alto e pra ter alguma coisa tem que ralar muito, alguns amigos meus que moram lá trabalham demais, mais do que aqui no Brasil. Algumas coisas me irritavam no Japão, as pessoas trombam com você na rua e nem ao menos pedem desculpas, as mulheres japonesas não se depilam e não gostam muito de beijo na boca (pelo menos as que eu conheci) e o jeito em que eles tomam sopa fazendo barulho. Notei que não é falta de educação pra eles. Mas pra mim... putz...


Nos dois anos em que morei no Japão, fiz meu mestrado em cirurgia ortopédica. Morei em Tokyo, Hokaido e em Fukuoka, uma cidade no Sul, bem charmosa e tranquila. Visitei Hiroshima, Nagasaki e outros lugares menos conhecidos. Conheci milhares de templos e dedicava boa parte dos meus dias à meditação. Viajei pra Coreia do Sul, China e Finlândia. Foram os dois anos em que mais vivi . Me apaixonei perdidamente por uma brasileira e com ela vivi um sonho que jamais esquecerei, mas nossa história pertenceu ao Japão.

Uma das coisas que mais sinto falta por lá, são dos amigos que fiz, obviamente e das baladas, das cervejas, sakes. Por mais que a gente encontra produtos japoneses por aqui não é a mesma coisa.




Confesso que fiquei um pouco oriental. Algumas coisas da cultura japonesa eu trouxe pra mim, adquiri bons hábitos e boa parte de mim está vivendo lá. Ainda não aprendi a conviver no Brasil mesmo entre os meus, entre as pessoas que também fazem parte da minha  vida. Se em Portugal eu aprendi a ser homem, no Japão eu aprendi a ser humano,

O Japão é a saudade que eu gosto de ter, enquanto meu coração não aperta insuportavelmente de saudade, eu tento viver aqui na pátria que me pariu, mas que nem de longe é uma pátria mãe gentil.

Aqui estão algumas das milhares de fotos que fiz do Japão.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pra pensar

"A tragédia moderna é a procura vã de adaptação do homem ao estado de coisas que ele criou."

(Clarice Lispector - Perto do coração selvagem)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Vivências - Portugal


Morar em Portugal me trouxe mais do que a experiência de morar fora da minha terra natal, trouxe o amadurecimento e o crescimento profissional. Me ensinou mais do que respeitar as diferenças culturais, como também valorizar a nossa, principalmente.


Sair do Brasil e morar em um país estrangeiro, ainda que usamos o mesmo idioma é um sonho de 1000 em 1000 estudantes que valorizam uma boa carreira profissional. Quando eu consegui me ingressar na universidade de Coimbra, realizei mais que um sonho pessoal, como de toda a minha família e a partida para lá foi sofrida em vários sentidos, o primeiro foi deixar a minha filha que era praticamente um bebê e segundo porque eu ia me separar da minha mãe. Eu como filho caçula sempre fui muito apegado a ela. Se não fosse a tecnologia, teria morrido de saudade.

Os primeiros meses morando lá, senti todas as dores e delícias da liberdade. Morar em uma república foi a coisa mais louca e complicada da minha vida porque sempre tive meu quarto só para mim e lá tive que dividir com 3 estudantes ( um espanhol, um argentino e um polonês), tive então que me acostumar a ouvir roncos, barulhos a qualquer hora da noite e do dia e não ter a menor privacidade. Dormir pelado então, nem pensar! ( nunca confiei nos argentinos...rs). Pra conseguir estudar eu precisava ir à biblioteca ou em uma das milhares praças porque na república era complicadíssimo, mas aprendi que ninguém vive sozinho no mundo por mais que queira, e parte das minhas vitórias devo aos três que me impediram muitas vezes de tomar o primeiro avião de volta ao Brasil. As saudades eram imensas e tive noites inteiras de choro, as vezes sem o menor motivo, confesso. Foi lá que aprendi que homem chora sim e que é muito bom.

Morar sozinho ensina a viver, já passei a pão e água por não ter tido planejamento financeiro e gastado tudo em baladas e viagens. Por falar em viagem, foi morando em Portugal que consegui conhecer praticamente toda a Europa: Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Alemanha( onde assisti alguns jogos da copa de 2006) e Irlanda. Foi em Portugal também que tive meu primeiro emprego na vida e pude sair da república, mas não morei sozinho também, dividi o apartamento com dois brasileiros, a Diana e o Roberto. Nessa época eu já havia perdido todo o meu sotaque mineiro e nessa época também consegui meu BI (Bilhete de identidade) me tornando assim um quase português.

Houve uma época, durante a minha pós graduação em que eu pensei em nunca mais voltar ao Brasil. Morar na europa me abriu a cabeça para muitas coisas, me fez entender que não há melhor lugar no mundo quando a gente não está bem com a gente mesmo, mas eu pensava no Brasil como o país mais atrasado do mundo, com pessoas mal educadas, uma terra de índios e ironicamente todas as pessoas que eu conhecia se encantavam quando eu lhes falava da praia de copacabana, do carnaval que eu tanto odeio, das belezas naturais, do clima, das pessoas e eu fui começando a sentir vergonha de ter vergonha de ser brasileiro, fato este que contribuiu pra que eu sentísse vontade de voltar pra cá, era aqui que eu tinha que lutar pra ser um bom profissional e tentar melhorar a vida do meu povo ( médico tem um pouco de Deus). Mas o destino nos prega peças, algumas duras demais.

Faltando um pouco menos de seis meses pra terminar a minha bolsa da pós graduação, meu pai faleceu, voltei ao Brasil para o enterro e minha mãe me entregou seu diário pessoal, lá ele não só guardava as cartas que eu mandava, como disse inúmeras vezes que eu estava realizando o seu sonho de viajar pelo mundo, e que tinha certeza de que meu lugar não era aqui, foi o sinal que eu precisava pra não voltar e perseguir meu sonho. Batalhei por um mestrado, mas não em Portugal, tentei pra onde ele sempre sonhou conhecer. Japão.

Os dias que me restaram em Portugal, procurei experimentar e conhecer tudo o que eu podia conhecer. Claro que morar lá e ser um cidadão português me possibilitou conhecer mais a fundo a cultura do país. Os olhos de um turista é bem diferente dos de quem passa a viver lá. Eu valorizava e me encantava com todas as coisas que via, desde andar de ônibus ( que eu odeio) até comer as comidas mais típicas e morrer de rir quando minha mãe me mandava palmito e mandioca e os portugas comiam maravilhados, um deles me pede sempre pra eu mandar.

Portugal foi um marco na minha vida, foi onde eu deixei de ser filhinho da mamãe e me tornei um homem de verdade, que tinha que administrar minha vida, minha casa, uma carreira recém formada e engolir o choro quando a saudade apertava. Portugal foi a minha mãe nos momentos que eu mais precisei e quando não necessitava muito era a minha irmã mais próxima. Eu andava pelas ruas e me sentia mais em casa do que jamais me senti em qualquer outro lugar.

É um lugar que tem espaço reservado em mim, e com certeza um dos lugares mais cotados pra eu voltar a viver, dessa vez, com a minha família.

Quem quiser ver algumas das fotos que fiz em Portugal, é só clicar aqui

sábado, 21 de novembro de 2009

Efemeridade

A gente tem sempre a estranha mania de falar em para sempre e faz planos para um futuro distante, sem perceber que a vida é só agora. Para sempre é tempo demais para se fazer qualquer plano, previsão, o pra sempre pode ser dois dias ou dois mil anos. Assim como uma vida inteira é somente o tempo determinado por Deus, independente dos anos que se tenha vivido, uma pessoa pode ter vivido 10 anos e outra 100 anos, qual delas viveu a vidatoda que tinha pela frente? As duas!

Ultimamente tenho assistido filmes que falam de morte e eu só vejo a vida em todos eles. A forma que cada um vive, com todas as dificuldades, paixões, vitórias, fracassos. Isso me faz pensar em algo mais profundo do que simplesmente o boomerang da vida onde tudo o que eu faço volta pra mim, sendo bom ou mau.

A vida que se leva não define a morte que se tem, então por que não podemos simplesmente partir sem dor e agonia? Morrer dormindo seria justo para todos nós, porque se nascemos sem a menor noção de existência, seria natural deixar a vida na completa inconsciência.

Hoje eu olho a minha filha aos 13 anos de idade com planos de vida, escolhendo qual carreira seguir, sonhando com viagens, morar no exterior, morar sozinha, formar uma família e eu me lembro como se fosse hoje cedo, ela saindo da maternidade , eu segurando suas mãozinhas e olhando em seus olhos, imaginando todo um futuro. Talvez nossa forma de ver o mundo era a mesma, encaravamos a vida como uma reta com placas sinalizando velocidade e perigos e no final seríamos recebidos com pódium e aplausos. Agora, só de pensar nas lágrimas e dificuldades que ela terá de enfrentar para conseguir alguma coisa na vida, dá vontade de enfiá-la de volta ao ventre de sua mãe. Vivenciar o sofrimento de um filho deve ser uma das piores coisas na vida, porém não posso furtá-la de nada. Sem sofrimento não há crescimento.

Então, quando eu penso na nossa brevidade, penso também na inutilidade de se levar as coisas tão a sério, passar por problemas e levá-los às últimas consequências. Tudo isso um dia irá acabar e tanto desgaste não terá valido de nada. As vezes acho que fazemos parte de uma matrix, fomos impostos a tomar o comprimido azul  e vivemos como meros ratinhos numa caxinha de skinner.

Quando Cazuza cantou:" - Vida louca, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve", ele não desejava a morte como muitos acreditam, mas ele descobriu que tudo o que nos cerca está nas mãos da vida, inclusive o tempo.

É inútil lutar quando se está certo da derrota, a vida é dona de si, ninguém a domina, ela é louca, selvagem e cheia de vontade. No final das contas somos um monte de nada.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A Partida - Okuribito

A morte é a única certeza da vida e o mistério que a cerca, nos faz temê-la. A maneira com que encaramos a morte é muito subjetiva, alguns acham que é um processo natural da vida ( o que não deixa de ser verdade) e vive sem se preocupar e há aqueles que não podem nem ouvir falar em morte que se treme inteiro.

Falar de morte varia, de certa forma, de cultura para cultura, geração para geração. Em alguns lugares ela é somente uma passagem, algo que irá acontecer e não adianta querer fugir, em outros mencionar a morte é um sinal de mau agouro, atrai coisas ruins e é sobre esse assunto que trata o filme, a partida.

A partida - Okuribito, é um filme japonês que fala da morte de uma forma diferente. Ele nos coloca diante da nossa finitude por outro ângulo, em como cuidamos dos nossos entes queridos e aos poucos nos emociona mostrando que apesar de triste, a morte também pode ser encantadora.

O personagem Daigo é um violoncelista que perde o emprego numa orquestra em Tokyo e decide voltar à sua cidade natal no interior, ele consegue emprego em uma agência que prepara corpos para o funeral. Lá ele enfrenta preconceito de seus amigos e sua esposa Mika, mas decide prosseguir no ofício porque é alí que ele encontra o sentido da vida.

O que no início era temor e repugnância, tornou-se então para Daigo mais que um emprego, mas a oportunidade de entender os mistérios da vida, o porquê de as coisas acontecerem com a gente, coisas que denominamos destino e acaso, fazendo com que ele começasse a lembrar do seu passado, a sua família, sua mãe falecida há dois anos, de seu pai que o abandonou quando ainda era uma criança e de sua relação com a música.

Ao som doce do violoncelo, a partida nos coloca o confronto cultural e milenar entre o Japão antigo e o moderno, mas acima de tudo nos mostra que a vida assim como a morte, é bela mesmo que tristemente.

Yes, we can!

Yes, we can!

Por Teoria

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