Morar no Japão foi uma surpresa imensa primeiro porque é longe pra caramba e segundo porque é o inverso de tudo o que vivemos pelas bandas do ocidente. Se você quiser viajar para o Japão é bom estar preparado para todo o tipo de surpresa e preparar muito bem seu inglês, caso o seu nihongo não esteja em dia. O alfabeto japonês é de deixar qualquer um louco. Até hoje me considero um analfabeto. Sei ler pouquissimos kanjis e escrever então, nem se fala. Parece uma criança no Jardim de infância
Lembro como se fosse hoje, o dia em que cheguei no aeroporto de Narita e fiquei perdido no meio de tanta gente. Enquanto eu esperava minha sensei chegar quase entrei em desespero por perceber que meu inglês era muito mais inferior do que eu imaginava. Passado o momento de euforia por estar naquele lugar mágico, conhecer pessoas incríveis de cada lugar diferente do mundo, fui tentar realizar as tarefas mais básicas: comprar produto de higiene pessoal, telefonar para a minha família e andar pelas ruas. Não consegui fazer absolutamente nada. Comprei creme de barbear achando que era creme dental, a ligação não completava e eu simplesmente me perdi pelas ruas de Tokyo. Me senti uma criança que sai de casa sozinho pela primeira vez, mas tudo era festa. E era mesmo.
As baladas japonesas são ótimas, todo sábado as boites lotavam, a maioria de gaijin (estrangeiros). Era gostoso se misturar entre portugueses, irlandeses, franceses, ingleses, holandeses e notar que você faz parte daquilo. Uma das coisas que mais me emocionava era isso, ser parte de um todo, de um Japão muito diferente desse que as pessoas no Brasil imaginam.
Quando a gente pensa em Japão, logo imaginamos um país que respira tecnologia e um povo frio. Parte é verdade, o Japão é mesmo o berço de todo o avanço tecnológico e os japoneses não são frios e sim reservados, polidos e muito educados. É muito impressionante notar o respeito das crianças pelos professores, a forma de tratamento é bem diferente das que vemos por aqui
O Japão é mesmo uma diferente e comporta uma diversidade de mundos incrível. Andar em Tokyo é um misto de São Paulo com New York, mas bem mais limpo, organizado e silencioso. O silencio em pleno trânsito incomoda, parece que tudo acontece diante de um telão.
Tudo impressiona, o ônibus é uma coisa absurdamente organizada, os banheiros são um espetáculo, tocam música, tem climatizadores, aromatizados, a descarga é silenciosa.Os karaokês eram ótimos. Andar de shinkansen foi um sonho realizado. O onsen é muito engraçado, eu custei a perder a timidez e relaxar. Dormir em cama era coisa do passado e comer de hashi não foi problema algum pra mim, me adaptei muito rapidamente, dificil foi perder o hábito quando voltei para o Brasil.
Nem tudo por lá é festa. O custo de vida é muito alto e pra ter alguma coisa tem que ralar muito, alguns amigos meus que moram lá trabalham demais, mais do que aqui no Brasil. Algumas coisas me irritavam no Japão, as pessoas trombam com você na rua e nem ao menos pedem desculpas, as mulheres japonesas não se depilam e não gostam muito de beijo na boca (pelo menos as que eu conheci) e o jeito em que eles tomam sopa fazendo barulho. Notei que não é falta de educação pra eles. Mas pra mim... putz...
Nos dois anos em que morei no Japão, fiz meu mestrado em cirurgia ortopédica. Morei em Tokyo, Hokaido e em Fukuoka, uma cidade no Sul, bem charmosa e tranquila. Visitei Hiroshima, Nagasaki e outros lugares menos conhecidos. Conheci milhares de templos e dedicava boa parte dos meus dias à meditação. Viajei pra Coreia do Sul, China e Finlândia. Foram os dois anos em que mais vivi . Me apaixonei perdidamente por uma brasileira e com ela vivi um sonho que jamais esquecerei, mas nossa história pertenceu ao Japão.
Uma das coisas que mais sinto falta por lá, são dos amigos que fiz, obviamente e das baladas, das cervejas, sakes. Por mais que a gente encontra produtos japoneses por aqui não é a mesma coisa.
Confesso que fiquei um pouco oriental. Algumas coisas da cultura japonesa eu trouxe pra mim, adquiri bons hábitos e boa parte de mim está vivendo lá. Ainda não aprendi a conviver no Brasil mesmo entre os meus, entre as pessoas que também fazem parte da minha vida. Se em Portugal eu aprendi a ser homem, no Japão eu aprendi a ser humano,
O Japão é a saudade que eu gosto de ter, enquanto meu coração não aperta insuportavelmente de saudade, eu tento viver aqui na pátria que me pariu, mas que nem de longe é uma pátria mãe gentil.
Aqui estão algumas das milhares de fotos que fiz do Japão.





